XIII











Capítulo II

XIII


Maria.
Foi este o nome que minha mãe me deu antes de a perder. Mulher linda. Longos cabelos loiros, olhos verdes e pele clara. Não chegou a conhecer o verdadeiro amor, não chegou a saber se ele existe ou não. Gerou-me e pariu-me. Depois morreu. Morreu carregando-me em seus braços.
Fui criada pela minha avó paterna e mimada pelo retrato de minha mãe. Meu pai? Não cheguei a conhecer. Partira em missão de paz para a Guerra sem saber da minha existência e não regressou. Quando nasci e minha mãe morreu, a minha avó paterna tomou conta de mim para evitar que eu fosse depositada na “Misericórdia”. Não por ter pena de mim, antes por temer falatórios na Vila sobre a má conduta dela e do senhor seu marido, meu avó. Homem sisudo e poucas falas, era um dos grandes capitalistas da zona. Não me lembro de um carinho, também não lembro de uma repreensão. Minha avó era diferente. Falava muito e muito alto. Usava o cabelo grisalho apanhado com ganchos e vestia com elegância. Mas não me dedicava muita atenção. Era empregada que me levava à escola, à missa ou à costureira. Até que cresci e fui estudar para Coimbra. Só regressei à Vila para o funeral de minha avó.
Fui sempre pessoa só e que amava a solidão, até conhecer António. Ainda estudava quando o conheci. Trabalhava numa clínica de psiquiatria ao pé da faculdade e ia tomar café todos os dias ao mesmo café. Jornal debaixo do braço e olhar descontraído. Cedo me enamorei pela sua figura. Meses depois casámos. Corremos o Mundo de mãos dadas e fomo-nos conhecendo melhor um ao outro e um com o outro a cada viagem. Os dias iam passando lentamente e foi lentamente que comecei a sentir uma sensação estranha. Precisava de estar com alguém, falar, ser escutada, tocar e ser tocada. Sensação estranha, o medo e ainda hoje o sinto. Nem o retrato de minha mãe me traz agora a segurança e presença de outrora.
Meu marido sempre me acompanhou. Era a ele que contava os meus medos. Conhecia-me tão bem. E só ele me transmitia paz interior. Mas a sensação de medo e dependência a ele foi-se agravando. Passei a amar o sol e a odiar o silêncio. Figuras estranhas passavam frente aos meus olhos, vozes entravam no meu cérebro e senti-me enlouquecer.
- O que vês, Maria? Diz-me o que vês.
Deitada frente ao meu marido, de olhos cerrados dizia-lhe o que via o que escutada e o que sentia.
- Tu tens um medo.
Mas com António a meu lado, esse medo ou qualquer outro medo deixava de fazer sentido.
- Enquanto aqui estiver ele não volta, Maria. Descansa, eu estou aqui.
E era assim todos os dias. E assim foi até descobrir o meu medo.

XII


XII

Amanhece.
A janela não foi fechada ontem à noite, com a certeza que virias. E vieste. E foste.
Foi naquele momento em que as estrelas brilharam. Foi naquele momento em que a brisa se tornou mais fresca. Foi naquele momento único de silêncio total. Então tu vieste, tocaste-me de leve e sorriste. Vi o meu rosto empalidecer em teus olhos, não deixaste o sorriso e voltaste a tocar-me.


«Tenho saudades tuas.» repeti-o tantas vezes, até ter a certeza de que me conseguias escutar.
«Estou aqui Maria, consegues ver-me? Olha para mim. Vês? Estou aqui. Consegues sentir-me? »
Sim. Eu vi-te, eu senti-te, senti a tua respiração, as tuas palavras ditas com doçura e desespero, eu senti o teu suspiro e depois partiste.
A noite acabou e o medo voltou.
“Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo dia. Que morres no amor.”
Eu tenho esse medo. Tenho medo que na próxima noite não voltes. Tenho medo que na próxima as estrelas não te tragam até mim.

O sol teima em aparecer.

Não! Não... eu não quero mais o sol, eu quero a noite, as estrelas, quero-te a ti. Sim, é de ti que a minha alma se alimenta. Não a deixes definhar, volta logo, por favor. Promete que logo voltas para me ver, me tocar, me sorrir...



É dia feito, já. Acordei e ainda te senti, estavas dentro de meu peito.
“Tu tens um medo: Acabar.”

Para o um Caríssimo Leitor (muito em especial)

Aviso a todos os visitantes do Ponto de Encontro que este texto contém linguagem que poderá ferir sensibilidades.
Por esse motivo, apresento desde já as minhas desculpas.


Caríssimo leitor (em especial)
Decidi escrever este texto, em especial para si, porque sei e poderei comprovar que o vai ler (ao contrário de si, que jamais poderá comprovar coisa alguma, sobretudo a respeito de minha pessoa). Felizmente as novas tecnologias ajudam-me nesse sentido. Portanto, não lhe adiantará de nada desligar. Neste momento o maravilhoso statcounter já procedeu ao registo da sua entrada, caríssimo leitor (em especial).

Mas vamos ao que interessa, porque Eu, e mais uma vez ao contrário de si, despendo o meu tempo em trabalho e não a dissertar sobre a vida particular dos demais. Portanto, caríssimo leitor (em especial), vou seu curta e directa:

Não lhe vejo autoridade moral para falar de minha pessoa, sobretudo na imputação mentirosa que ofende minha honra e dignidade, estando o caríssimo leitor (em especial) em perfeita consciência da falsidade dessas afirmações. E tais afirmações, ditadas para o ar, sem a respectiva comprovação, são afirmações graves, em linguagem técnica, são Crime!

Caríssimo leitor (em especial), mediante prova da situação por si criada (e esta, insisto, poderei comprovar) subsiste-me alertá-lo para tal crime que cometeu e possivelmente ainda comete (esperando minha pessoa que não, para seu próprio bem). De tal forma julgo avaliá-lo como um Ser caluniador, profeta de inverdade, falso moralista.
Poderá expressar todas as inverdades difamando os demais, poderá conseguir que lhe aceitem sua prosa, mas à minha pessoa, caríssimo leitor (em especial), não alcançará tal proeza.
À minha pessoa, caríssimo leitor (em especial), jamais enganou ou enganará com sua pose. Felizmente estou dotada para apurar em primeira instância mentirosos e charlatões, como o caríssimo leitor (em especial).
É de lamentar, no entanto, ver a minha pessoa forçada a dirigir-se ao caríssimo leitor (em especial) desta forma, usando um “local” limpo onde reina a verdade.
De tal forma, caríssimo leitor (em especial) se já leu estas palavras, nada mais tenho a acrescentar, senão reforçar as características que o pautam, caluniador, profeta de inverdade, falso moralista.

Caríssimo leitor (em especial) deve já ter constatado que este “local” é limpo, portanto impróprio para o seu meio de subsistência, agradeço que não o volte a frequentar. Relativamente à calúnia e difamação que usou contra minha pessoa, descanse caríssimo leitor (em especial) não entrarei com um processo em tribunal. Far-se-á a justiça de outra forma (aquela que para o caríssimo leitor (em especial) é usual).
Agora, por favor, desligue e não volte!



Aos restantes visitantes do Ponto de Encontro renovo as minhas desculpas
e prometo limpar o “local” com uma solução alcalina.

A tua luz


Trazes a luz no corpo...
Luz na alma, luz nas mãos...

Com tuas mãos roubas as sombras da luz.
Gestos de dedos, que tu não poupas,
neste brilho amado e que te seduz.

Tua luz é clara, pura e brilhante.
Tem a beleza de pedra rara,
que perdura mais que um mero instante.

É a luz que agarras e que libertas,
porque a luz não tem amarras...
E é desta forma que tu te contentas.

Trazes a luz no corpo...
Agora a luz vai dormir...


Poema de Nuno Rita

basta-me




basta-me que sorrias
todo o sol que o dia não trouxe hás-de
promete-lo nos teus lábios
chove
a noite apressa-se a toda a parte:
sou eu e o universo
eu e a hora dos que recolhem ao quarto
eu e um sorriso apontado ao coração

basta-me que sorrias
basta-me saber daqueles que ama
e também choram
daqueles que amam e também escondem

basta-me que sorrias
basta poder deitar-me ao teu lado
e n
ão estar só
basta-me que sorrias

J. R Lopes, Dias Desiguais, ed. Labirinto

XI



A vida sorri-te, Maria?
Não. A vida não me sorri.
A vida é madrasta comigo.
Sinto que o que procuro não encontro,
o que desejo não alcanço,
o que sonho não se realiza,
os que me amam eu não os amo,
porque não cheguei a conhecer o amor.


Sempre quis o bem acima do mal.
Sou perfeccionista de extremos,
gosto muito e não gosto nada.
Imagino alegria,
boas sensações,
bons momentos,
sorrisos, viagens no tempo,
mas não me vejo nelas,
não me vejo neste mundo e nada sinto.
Parte de mim não encaixa na outra.
Não encontro sintonia.
A alma e o corpo não se chegam a tocar.


Vejo-me agora sentada frente ao piano.
Ele reluz tão intensamente
como que se pedisse baixinho «dá-me vida».
Toco-lhe a medo.
O som agudo assusta-me.
Toco-lhe novamente, e novamente e novamente.
As notas disparam como flechas desconcertadas e sem alvo.
Toco furiosamente,
cada vez mais rápido,
com cada vez mais força.
Tento arrancar das teclas perfeitas a perfeição para a minha vida.
Suspendo. O silêncio é cruel.
As lágrimas queimam o rosto, petrificam a alma.
Vejo-me na infância. Sou eu.
As imagens vão-se sucedendo umas às outras e sempre mais.
Continuo a ser eu.


Detenho-me a olhar as mãos que tremem.
Secam-se as lágrimas e as escuridão volta ao meu redor.
Nada, absolutamente nada.
Os cortinados esvoaçam nas janelas abertas de para a par.
Chove lá fora.
Chove na minha pobre alma.
Volto a ver o piano e as minhas mãos.
Toco-lhe de ponta a ponta.
Ele chora. A minha alma chora.

O que levar desta passagem pelo tempo?
Ontem nasceste, hoje estás aqui, amanhã já te esqueceram.

Desejava adormecer em sono profundo,
Acordar no meio de uma paleta de cores,
Sem o branco, sem o preto, sem buracos.
Uma paleta perfeita.

Vejo-me ao espelho,
Corpo débil, olhos fundos, mãos brancas.
Fecho os olhos e tudo volta até mim.
De novo a escuridão,
o HOJE já passou.


Outras Mensagens

Foto enviada pela "mana" Manuela,
do seu álbum de recordações



Encontrei ao acaso este cantinho há cerca de meio ano e regularmente o visito. Gostei das fotos e sobretudo da escrita. Facilmente se assemelham à realidade. Muito bom!


Zé Manel - Porto

Olá Martinha!
Parabéns pelo teu blog.
Engraçado como já não nos falávamos faz tanto tempo e vim encontrar-te precisamente aqui.
Parabéns e (muitos anos de vida bloguista)

De Andorra, Vasco




Uma palavra de apreço e congratulação pelo seu blog e pela teimosia em sua
criação! Valeu o esforço, não?!
Até Breve,
Aneli, Rio Grande

Olá minha linda!
Tal como te prometi, aqui vai uma mensagem de Parabéns para ti e para o teu blogue que eu gosto de visitar, sempre que posso. O Ponto de Encontro, será sempre o meu local de passagem e o nosso local de encontros, para matar saudades.

Catarina, Braga



Muitos Parabéns por um ano de belíssimo trabalho e por uma casa tão acolhedora a que ninguém resiste!!
Da tua mana......

Catia Costa, England


Por aqui


Ponto de Encontro”, completa hoje um ano!

Criado por capricho ou teimosia, este “Ponto de Encontro” é já a minha casa, de portas e janelas abertas.
E com um ano passado, ainda me perguntam qual a serventia do blogue.
É só mais um PONTO DE ENCONTRO!

A todos os que me procuraram nesta (humilde) casa, o meu muito Obrigada e a todos os que ainda me procuram, sejam Bem-Vindos. Esta é a minha casa, é a vossa casa.

E porque a vossa opinião também é importante, estou receptiva a comentários, sugestões ou pequenas mensagens de Parabéns, afinal já cá está há um ano...



Correm, vivem correndo.
Tropeçam uns sobre os outros, às manadas.

E o sino começa a tocar.

Fecham-se as portas, todas, menos as do bordel. De fora consegue escutar-se a musica. Alguém dá a voz para acompanhar o ritmo. Rolam canecas por entre as mãos dos homens sequiosos, indiferentes à guerra .

As ruas testemunham o silêncio absurdo que vem do medo à morte. As lágrimas lavam a calçada já gasta, as velas não são agora acesas, falta o pão e a água, os meninos choram baixinho e as bombas estremecem as casas.

A cena repete-se por dias e dias e dias...

É mesmo assim, meus senhores:
É só para isto que serve a guerra.

Por outros encontros





Por outros encontros (I)



Não foi mais um encontro. Tanto ficou por dizer, ainda.

Há dias abordaram-me convictos que a passagem pela Terra é curta e rápida. Pensei e repensei. Decidi abordar-te. Fi-lo de mansinho. Acedeste. – Era a oportunidade para te dizer aquilo que tanto queria, antes de partir. Tu sabias que o queria fazer, por isso partiste primeiro.

Num pequeno encontro, jurei a mim mesma ser completamente sincera contigo e comigo.
Não te quis usar, não te quis pedir nada. Apenas a tua companhia. Sabes, fazia-me falta a tua companhia. Quando te disse que tinha saudades, não resisti e olhei-te. Percebi que sentias o mesmo. Não sentimos a falta um do outro, sentimos a falta da proximidade um pelo outro.
Perdi os teus pequenos gestos, perdi a tua voz, perdi o teu cheiro. Ganhei o vazio e mais saudades.


«Diz menina» - pediste-o tantas vezes que acabei por não dizer aquilo que queria. Era minha intenção dizer-to. Nada que não suspeitasses já. Bastaria olhares-me daquele jeito. Esse jeito que só tu sabes fazer. E a coragem para to dizer escorregava-se pela garganta. Achei melhor não.
Fiz mal. Teria ficado com a alma mais leve.

Tenho a certeza de que construiríamos a Amizade. Aquela que me faltava a mim. Aquela que te faltava a ti. Não foi possível, era já tarde.

Pedi-te que não me esquecesses. Pedi mais que uma vez. Não o faças! Prometo não tocar mais neste assunto. Sei que te incomoda, porque já sabes o que te queria dizer.
Prometo não te obrigar a sentar ao meu lado, mas esse lugar será o teu lugar.
Não era minha intenção magoar-te. Não era minha intenção desrespeitar-te. Não era minha intenção deixar-me levar.
Fiz-te perceber que jamais traria no bolso alguma mágoa ou tristeza. Antes o teu sorriso e a promessa de que não me irás esquecer.

Até breve companheiro!







Por outros encontros (II)


Não comentaste. Apenas disseste «Tens a alma na ponta dos dedos».
Ai... Tanto e tão pouco!
Olha-me agora. Olha-me nos olhos, lê-me o pensamento. Quero que me olhes por dentro, quero que vejas aquilo que realmente sou. Como poderei nada ter?

«Tens a alma na ponta dos dedos». – Tenho sim.
E é com ela que te toco, é com ela que te sinto. E foi nela que me cativaste.

São para ti, estas palavras com música.



«Find a way and clear my soul
driving out to get my goal

God knows I cannot stand
It`s time to say goodbye

You don`t know, you should have know
The pain I feel inside

So, I was dreaming of you
I was falling with you
And broke my heart

So, I was falling of you
I was dreaming with you
And broke my heart

Find a way and clear my soul
Driving out to get my goal

You don’t know, you shoul have know
The pain I feel inside

God knows I cannot stand
It`s time to say goodbye

Find a way to ease my breath
On and on to fill my chest

I can`t stay, I cannot stay
Cause only tears remain

I can`t hide, I cannot fight
And play this crying game

So, I was dreaming of you
I was falling with you
And broke my heart»


Rodrigo Leão, Deep Blue

X





Carta para ti ( 3 )


Hoje voltaram a fazer perguntas sobre ti, sobre mim, sobre nós. Vieram também uns senhores de fora. Falaram de ti.
Disseram que teriam aberto um processo para investigar as causas da tua morte. – Parvos! Completamente absurdo. Disse-lhes que não estavas morto. Insistiram e eu insisti também. Ainda ontem te vi e falámos tanto um com o outro.

Acho que eles não acreditaram em mim, por isso me julgam louca. Só o tipo da bata branca e olhos azuis pareceu acreditar. Disse-lhes qualquer coisa muito baixinho e ordenou que nos deixassem a sós. Depois olhou-me demoradamente e sentou-se a meu lado.

-
Vamos fazer um jogo. Eu pergunto, a Maria responde. Regra número um: só pode dizer a verdade; regra número dois: não pode abrir os olhos; regra número três: não voltaremos a fazer este jogo. Aceita?
Aceitei.


-
Então comece por se deitar e fechar os olhos.
Foi o que fiz.
-
Agora leve-me até sua casa. Diga-me, o que vê?
- Vejo o meu quarto. Vou até à janela, abro-a e já sinto a maresia. Ah, o mar! Que saudades do mar...
- Porque chora, Maria?
- O meu marido...
- O que aconteceu ao seu marido?
- Não, é mentira!
- Maria, o que aconteceu ao seu marido?
- Ele está aqui, eu consigo senti-lo. Consigo escutar-lhe a respiração. Ele está aqui. Está sim...
- Maria, que aconteceu ao seu marido?
- Não. Basta!

Abri os olhos, o jogo terminou. Ele pegou nas minhas mãos frias e disse: Amanhã continuamos o jogo, está bem? – depois saiu.
Adormeci e de nada mais me lembro.

Veio-me à memória, o momento em que lias para mim. Este pequeno momento é para ti.

Sempre tua.




Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.

No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.


- Cecília Meireles, cântico IV

IX





Carta para ti ( 2 )


Hoje não te vou escrever uma carta, antes oferecer-te um desejo. Sei-te tão bem, que até consigo ver o brilho nos teus olhos aveludados. Pediste-me um desejo todas as noites, até naquelas em que não era possível sonhar! Exigias de mim o mesmo que exigiste sempre em ti. Eras duro comigo. Os meus desejos saíam sempre do ínfimo, arrancados às vezes com lâminas aguçadas. Provocavas em mim uma dor atroz. Eras mesmo assim, profundo.



Confesso. Confesso que em algumas noites, a minha alma chorou. Não conseguia encontrar a razão da tua insistência. Era tua esposa, não tua paciente.
Pensei várias vezes que me testavas, testavas o meu limite. Pensei várias vezes que me transportavas para o teu mundo, que afinal era o nosso. Pensei que te tinhas desencontrado, e recorrias ao meu juízo para descobrires o teu... Tudo em vão. Acabei por perceber. Mais tarde. Querias apenas fazer-me pensar.



«Tenho medo, amor. Tenho tanto medo de morrer inocente» - Disse-o tantas vezes que já terminavas a expressão com um sorriso. Até hoje, só tu conseguiste entender a minha fraqueza.
Talvez por isso ache em ti, tudo aquilo que me faz falta. Tu e Eu somos um todo – somos a mesma pessoa.



Batem os últimos raios de luz na minha face. Consigo sentir-te agora. Sei que estás aqui. Não estou “psicologicamente cansada” como dizem. Estou apenas certa de que estás aqui. Tu e Eu somos um todo – somos a mesma pessoa.



Sempre Tua

VIII



Carta para ti ( 1 )


Lancei-me no abismo. Não consegui pensar em solução alguma. Na realidade, até nem havia necessidade de conseguir solução, nunca houve problema. Só me faltavas tu. Talvez tenha sido por isso que eles me trouxeram para aqui. Dão-me comida, papel e tinta. Olham-me com um misto de ternura e pena, mas não falam para mim. Não os conheço. De vez em quando, quando o sol vai já longe, vem o médico – disse-mo ele. Fala para mim, não o quero ouvir. Faz perguntas sobre mim, sobre o meu trabalho, sobre a minha família, sobre os meus amigos (que é apenas uma), sobre o meu marido, que eras tu e sobre o filho que nunca chegámos a ter. Já lhe disse que não quero falar. Ele sorri e vai embora. Amanhã volta, volta sim. Mas eu não vou falar. Não gosto deste lugar. É feio, escuro, silencioso e cheira a sofrimento. Não deveria estar aqui.Durante a tarde deixam-me ir até ao jardim. Lá eu gosto de estar. É encantador. Lembro-me muito de ti, quando lá estou. Ás vezes até canto para ti, consegues ouvir-me?Fecho os olhos e vejo crianças a andar de baloiço, até lhes consigo escutar o riso. Também vejo o escritório, está alguém no meu gabinete. Já me esqueceram, safados... A Inês também aparece muitas vezes. Vejo-a sempre a correr de um lado para o outro, é ela mesmo. Outras vezes vejo-te a ti, descalço, caminhando sobre a areia molhada da praia e eu, eu estou mesmo em cima, na nossa varanda. Aceno-te várias vezes. Consegues ver-me?Vou dobrar esta carta e escondê-la na roupa. Andará sempre comigo. Ninguém pode saber que hoje falámos. Amanhã volto, prometo! Agora fecha os olhos para não veres as minhas lágrimas. Não, não quero que as vejas. Vou cantar silenciosamente para ti, como tu cantavas para mim. Lembras-te?

«Turn the lights on,
the night is too long
Keep yourself warm,
I´m coming home

I cannot help you,
you yourself must see
Decide now what you want to be
Turn the lights down,

the lights are too stong
When you`re down and out,
just hold on
Realize that nothing lasts long

We must belive
the things we cannot see
Everything´s allright with me
Turn the light`s down,

the light`s are too strong
I just want to sleep by your side
It makes me feel so alive
I just want to sleep for awhile
Turn around,

the night is still young
Realize that things can go wrong
You must decide now
where you want to be
You´re the one that said to me:
Realize that nothing lasts long

I just want to sleep by your sideIt makes me feel so alive»


Sempre tua.

VII

Imagem de João Lobo



VII


Na vida não podemos ser felizes ou infelizes, só. Acuse-se o Sr. Infeliz, ou o Sr. Feliz.
Há sim, momentos de felicidade e outros de infelicidade.
Quando conheci meu marido, senti-me a mais perfeita das mulheres – chamei-lhe de dia feliz. Quando percebi que tinha medo da vida, senti-me a pior de entre as mulheres – foi sem dúvida um dia infeliz.


Mas pior que momentos de infelicidade, são as sensações de medo, de angústia, de perda, de culpa, sem que as possamos justificar.

Aconteceu-me há dias. Estava no trabalho, o telefone tocou. Não falaram, desliguei. Voltou a tocar, o alguém do outro lado voltou a não falar. Insisti e nada. Apenas lhe consegui perceber a respiração calma e compassada.
Chamei a isto um engano, simples engano.
No dia seguinte voltou a acontecer. E nos dias que se seguiram, também.
Chamei a isto um medo, o terrível medo da solidão. Conheço-o bem, sacana.
Conheço-te tão bem que até sei quando chegas e quando te vais. Consigo ver-te, sentir-te e no dia em que te consegui tocar, tu irás embora, para sempre.

Consideram-me maluquinha. Ouvem-se vozes “está a ficar maluca” , “precisa de ajuda”, “tenho pena”, “coitada”, mas não. Não, eu não estou maluquinha... Só preciso encontrar a minha alma perdida.

- Larguem-me. Entendam, só preciso encontrar a minha alma. Sem ela...
Não me ouviram e eu também deixei de os ouvir.


(continua)

VI



VI

Vieste,
lá do longe, do infinito.
Conheceste e deste a conhecer.
Trazias o peito aberto,
recebeste também.
Fixaste-me na tua alma,
enamoraste-me e eu,
eu enamorei-te também.

Agora apertas-me o peito,
fazes-me viver a mais profunda das tristezas,
numa feroz agonia
sem fim.

Suja, deixaste-me suja.
Seca, má e perdidamente suja


Está absorvido em mim,
o horror eterno à vida,
sem ti.

Em miserável tarde me deixaste.
Não, não escutaste.
Nem sequer sentiste
minha pobre alma encarcerada.

Foste, completamente só
de olhos apagados e braços baixos,
derrotado.
Que mais poderias esperar dela?
Traiçoeira,
é traiçoeira, a vida...
desengana-te...

Arrisquei um perdão,
ignoraste-o.
Arrisquei um acto de loucura,
ignoraste-me – pior ainda.

Olha, olha-me agora.
Vê este corpo esfarrapado,
sem nada, sem alma,
vazio.

De entre a escuridão, ainda espero:
Tu ou a morte.

(continua)

V


V


Sou uma pessoa de extremos.
Quando gosto, gosto muito. Quando não gosto, simplesmente detesto.
Não tenho ilusões. No meu mundo, respeitada por uns, odiada por outros.
Geralmente percebo à primeira se gosto ou detesto. E então no que toca ao ser humano, esta minha teoria ganha ainda mais sentido. Felizmente nasci com este dom (considero um dom). É na primeira conversa ou simples olhar que eu faço o melhor raio-x. Às vezes sofro com isto. Gostava de ser mais inocente.


Tenho poucos amigos. Na verdade, tenho só dois – o meu marido e a minha amiga Inês, que, atendendo à idade, é uma espécie de mãe para mim. Os verdadeiros amigos são uma espécie rara. Dois é um número razoável.



Já é tarde. O meu marido já chegou.
- Então querida, já dormiste tudo? Disse-o sem maldade e com um sorriso nos lábios. Era por isso que o adorava, dizia as coisas de uma forma tão natural, que me fazia sentir bem.
Não lhe respondi. Corri a abraça-lo. E depois chorei. Chorei muito.
Ele entendeu.
- São lágrimas de medo. Eu estou aqui, já passou.

Tinha passado. Já não tinha medo.


(continua)

IV

IV


As noticias que leio no jornal impressionam - me.
Fazem a manchete com pais a violarem os filhos, mães que os deixam em casa sozinhos, vizinhos que se violentam entre si, jovens esfaqueados à porta de bares e discotecas. Todos os dias, o mesmo em cada jornal.

- Já leste isto? O meu marido exibe a página do jornal. Lembrei-me subitamente de uma professora que tive, que um dia nos confidenciou que a vizinha do lado não acreditava nas noticias macabras – «dizia ela que era pura ficção». Talvez fizesse sentido não querer acreditar, era melhor. Era bem melhor.
Não quis ler. Não quis acreditar também.

- Ainda que tente entender, não consigo. – continuou. Olhei-o e encolhi os ombros. Arrisquei – É melhor não entendermos, não pensar mais nisso, não achas?

Não me respondeu. Conheço-o. Vai pensar nisso o dia todo. Vai voltar ao assunto mais tarde. Talvez depois do jantar. E eu, eu não vou despachá-lo. Vou ouvi-lo atentamente e considerar todas as possibilidades que ele encontrar durante o dia. È assim que nos entendemos. Somos previsíveis. Adivinhamo-nos constantemente.

Hoje é feriado. Ainda assim, ele vai trabalhar.
Nunca gostei deste dia. È melancólico, triste. Venerar os que já cá não estão.
O medo de morrer apoderou-se de mim naquele momento.
Acontecia de vez em quando. Geralmente quando estava sozinha a pensar em nada em concreto, lá vinha aquela sensação desagradável. Às vezes entrava em pânico. – Calma, respira fundo e pensa noutra coisa. Não tenhas medo. Ele segurava-me na mão e com uma voz doce pedia que me acalmasse. Resultava sempre. Depois abraçava-me. Era o meu protector.
Mais tarde voltava a pegar no assunto. Devia estar a tentar perceber o meu problema. Falava dos meus sonhos, dos meus medos e depois dos meus desejos. Era agradável.
No final de cada conversa, sentia-me tão leve, tão descansada, que o medo de morrer já não fazia sentido.

Hoje ele não estava aqui. Comecei a sentir-me mal. Tive frio, tive medo.
Fazes-me tanta falta.


(continua)

III




III




Sou uma mulher feliz.


Tenho emprego, gosto do meu trabalho. Tenho um tecto, é um pequeno T2 junto à margem. Tenho um gato, que me é fiel tanto como um cão – é o barbichas. Tenho marido, que me ama (diz-mo todos os dias, ao acordar) – é o meu maior amigo.


Estou de bem com a vida.

Levanto-me quase sempre à mesma hora. Dou o Whiskas ao barbichas. Acordo o Zé. Vamos tomar o pequeno almoço à pastelaria do Moliceiro.
- Duas meias de leite e dois pães com manteiga. É quase sempre o mesmo.


Ele vai para o hospital, eu para o escritório.
Falamos muito um com o outro. Não discutimos, só elevamos um pouco a voz, como pessoas educadas. Nada de brigas feias.
Ele pára para me escutar. Depois fica a mastigar o que disse, não fosse ele psicólogo. Eu falo muito, confesso. É da profissão que tenho.


Geralmente tiramos o fim de semana para passear pelo país. Fotografamos tudo e colámos as fotos na parede do escritório lá de casa.


Ele, moreno, olhos castanhos, mãos suaves, sorriso aberto, paciente, ponderado, rigoroso, optimista, inteligente, bem humorado, atencioso, alegre.
Eu, loira, pele clara, mãos compridas, olhar penetrante, impaciente, explosiva, pessimista, perspicaz, exigente, humor refinado, ciumenta.
Aceitamo-nos tal como somos.


Somos felizes. Aparentemente.


(continua)

II



II.


Na rua pairava o cheiro do pão quente. Em outros dias, agradava-me mastiga-lo, hoje enojava-me. Não me alimentava fazia dias.
Apanhei o autocarro. Estava completo.
Mulheres com crianças, miúdos vindos da escola, meninas bem maquilhadas, senhoras bem vestidas, rapazes de rastas, o motorista com ar cansado e eu, molhada, suja e de olhos vermelhos.


- Quer sentar? Uma senhora ofereceu-me o lugar. Engraçado. Era muito mais velha que eu, trazia consigo uma dúzia de sacos e cedeu-me o lugar. Deve ter ficado com pena do meu estado miserável, a miserável condição de ser humano em que me encontrava.
Acenei-lhe negativamente. Mesmo que lhe respondesse com a voz, ela não iria escutar. Os sons que o conjunto de vozes produzia era mais forte. O autocarro parou muitas vezes até chegar ao meu destino.
Toquei. Parou. Saí.



Não chovia, a estrada estava ainda molhada.
Pouca gente na rua. As lojas começavam a fechar, as luzes estavam já prontas para mais uma noite longa e eu lembrei-te.
Estava na hora de passar no hospital. Nunca mais lá fui desde aquele dia.
Nada ficou no lugar. Não voltei ao hospital, já devem ter perguntado por mim. Só curiosidade, não preocupação, eu sei.
Discutimos muito. Chorei. Choraste também. Implorei. Ajoelhei-me a teus pés, mas de nada adiantou. Tu estavas decidido.


(continua)