Pequenos Gestos


Os pequenos gestos


Os pequenos gestos são os mais belos. Talvez o saiba desde sempre, mas preciso de o lembrar muitas vezes. Fecho a porta do carro. Caminho sem destino. Considero devagar as diferentes perspectivas da cidade, das casas e das pessoas, das cores e das ruas, dos cubos de pedra no chão, dos sítios de que gosto mais e de que gosto menos. O ar frio trespassa-me por inteiro, corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, de estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…
Cismando nesta coisa que é ‘estar-se vivo’, passo e repasso pelas mesmas ruas, mãos nos bolsos, o olhar aceso, registando mentalmente movimentos, impulsos, ideias, até me deixar arrebatar de súbito, num canto qualquer, pelo aroma extraordinário do pão acabado de cozer, o mais puro e sublime e poético dos cheiros! Maravilhoso o aroma do pão fresco, de uma simplicidade que avisa os poetas do que deve ser a poesia — simples e maravilhosa! E ocorre-me, com um sorriso provável, o quanto eu queria ser padeiro naquela idade em que todas as outras crianças queriam ser doutores, mecânicos ou bailarinas.
Itinerário de escritor. Alimentado pelo impulso do pão, da memória, do frio, mergulho nas palavras. Junto-lhes o sabor do café, e sobre o tampo da mesa destapo a parker, a mais fiel das canetas, disparando-a como uma seta sobre a brancura das folhas, enegrecendo-as com a tinta, plasmando de riscos e correcções o papel, já de si crivado de outros riscos e correcções, atirando, umas atrás das outras, letras e frases tresmalhadas, pequenos versos, apontamentos variegados, rascunhos incertos de literatura, talvez para um romance, talvez para aliviar apenas a alma do peso da inspiração, do instante crítico em que se tem aquela vontade de escrever, para me saciar daquela fome que não se explica, mas que martiriza por dentro!
Escrevo então sobre a cidade, sobre os pequenos gestos, sobre os meus sentidos outoniços, destapados, desentorpecidos, julgando captar as coisas, objectos, pessoas, sentimentos, estímulos, como de uma primeira vez! Repito para mim mesmo e para o caderno que «Os pequenos gestos são os mais belos. Talvez o saiba desde sempre, mas preciso de o lembrar muitas vezes. Fecho a porta do carro. Caminho sem destino. Considero devagar as diferentes perspectivas da cidade, das casas e das pessoas, das cores e das ruas, dos cubos de pedra no chão, dos sítios de que gosto mais e de que gosto menos.»
Os pequenos gestos nunca são pequenos! São a vida! São gestos como escrever uma carta a alguém a que devemos amizade; são gestos como observar melhor a quantidade de ternura de um pai ou de uma mãe que toma o filho pela mão e o ajuda a atravessar a rua; são gestos como avaliar o calor humano que se concentra num abraço ou num beijo; são gestos como saborear mais intensamente os minúsculos rituais que nos cercam e que por capricho se tornam invisíveis ao olhar, tanto os repetimos, rituais como tomar um café e limpar os inevitáveis grãos de açúcar derramados em torno da chávena, rituais como saborear a suavidade do sol, aí pelo meio da tarde, nestes últimos dias da estação.
E aquele mesmo poeta ou homem ou sombra, deslizando de rua em rua, vai compondo para si outras frases, outros poemas, outros possíveis capítulos de romance, acrescentando à sua fantasia pequenos gestos a reacordar, a revalorizar, lamentando a distracção, explicando muito de si para si que, talvez por tê-los ignorado tanto tempo, a sua vida lhe tenha parecido sempre um escombro, um ‘puzzle’ de peças soltas, um vazio interminável, conjecturando que talvez por isso mesmo e apesar de todos os triunfos e conquistas, lá no fundo sentisse sempre a falta de algo, a dor de algo, a urgência de algo…Reentro no carro. Fecho a porta. Com o cadernito em cima do volante e antes de regressar a casa, assento em letra miúda e pausada:
«O ar frio trespassa-me por inteiro, corpo e alma, aragem de Outono, lavada, repleta de memórias, de estímulos que se agarram a mim, intensos e inexplicáveis…». E, ao cruzar o cinto, com a chave na ignição, intimamente transmudado, mesmo sem o saber, prometo-me apreciar melhor os instantes únicos da vida, os pequenos flagrantes de um quotidiano tantas vezes sujo e baço, instantes como abrir um presente, escutar a canção dos pássaros, apertar os atacadores, sentir o afago de uma mão no rosto, ou até o prazer secreto dessa velha parker, preenchendo as folhas!


por J.R.Lopes

1 comentário:

Anónimo disse...

este texto é muito fixe, e acho que diz coisas bem acertadas. Os pequenos gestos são mesmo como as pessoas, as vezes nem damos conta que existem, mas fzem muita falta.

daniela