
O padre foi o primeiro que encontrei.
Ficámos cinco, ao todo. Uma cientista e uma empregada de limpeza, o padre e um taxista, e eu. A primeira e mais obsessiva das teorias veio do padre, que acreditava estar morto e ter como missão encontrar Deus. A cientista fez ouvidos moucos e foi o taxista que perdeu a paciência com maior facilidade, bofeteando o padre perguntando de seguida como é que, estando morto, sentia dor. O padre não voltou a tocar no assunto, para que se veja, mas bem que podia ter dito que se existe um Inferno, existe dor na Morte. Paciência. Ainda dormimos. Fomos raptados para objectos de estudo.
Não tenho opinião. A teoria do sono lembrou-a a cientista. A da conspiração referiu-a a limpadeira. Quem não sabia o que pensar era o taxista. O padre já se sabe. E eu fiz-me de mudo. Resolvemos, antes de empreender alguma acção, sentarmo-nos em círculo e dialogar. As apresentações vieram em primeiro lugar, e foi aí que se soube que o padre rezava missas, que a limpadeira limpava escadas, que o taxista deambulava por ruas, que a cientista era uma Física e que eu não fazia nada de mais. Restava descobrir onde estávamos. Mas mais importante que isso, lembrou a cientista, não era descobrir onde estávamos, mas como estávamos. Mortos, disse o padre. O taxista bufou. Era bem possível que tudo fosse um sonho, que ainda não tivéssemos acordado completamente, um estado de limbo entre a ilusão e a realidade. Mas se for esse o caso, é o sonho de quem?, quis saber o taxista. Teu não é, respondeu a limpadeira, se isto é sonho é sonho meu, tão certo como eu ser mãe de três rapazes.
Não tenho opinião. A teoria do sono lembrou-a a cientista. A da conspiração referiu-a a limpadeira. Quem não sabia o que pensar era o taxista. O padre já se sabe. E eu fiz-me de mudo. Resolvemos, antes de empreender alguma acção, sentarmo-nos em círculo e dialogar. As apresentações vieram em primeiro lugar, e foi aí que se soube que o padre rezava missas, que a limpadeira limpava escadas, que o taxista deambulava por ruas, que a cientista era uma Física e que eu não fazia nada de mais. Restava descobrir onde estávamos. Mas mais importante que isso, lembrou a cientista, não era descobrir onde estávamos, mas como estávamos. Mortos, disse o padre. O taxista bufou. Era bem possível que tudo fosse um sonho, que ainda não tivéssemos acordado completamente, um estado de limbo entre a ilusão e a realidade. Mas se for esse o caso, é o sonho de quem?, quis saber o taxista. Teu não é, respondeu a limpadeira, se isto é sonho é sonho meu, tão certo como eu ser mãe de três rapazes.
A última memória de cada um, sem excepção, era o deitar para dormir. Depois, foi o acordar naquele local de casas rústicas abandonadas no tempo, de telhados caídos e paredes desmoronadas. Nenhum de nós tinha relógio, mas era de madrugada, segundo o taxista. Como é que sabes?, indagou o padre, se não tens qualquer instrumento que to comprove. A madrugada sente-se, não se mede. Tretas, o padre foi céptico, bem que pode ser altura do ocaso, as cores são as mesmas. A madrugada sente-se, disse a cientista, é como a fé; sabe o que é fé, não sabe, sacerdote? Não sei muito, nem de Física nem de religião, só sei que sinto a madrugada, tal como aqui a nossa amiga que sabe que o sonho é dela, disse o taxista. Ora, se o sonho é dela, nenhum de nós existe, ou melhor, só existe a sonhadora, que está a sonhar com um motorista que sente a madrugada, lembrou o padre. E? A pergunta veio da limpadeira, que não compreendia muito do que se ia dizendo. Mulher demasiado simples, com apenas quatro anos de estudos em cima. Se era sonho, dela não seria, que era ignorante no que toca à Física e, segundo ela, a essas filosofias, e uma pessoa só sonha com o que está na cabeça. Filosofias todos as temos, disse o padre. Mas resolveram cessar a discussão. Sonho não deveria ser. Morte também não. A limpadeira lembrou o filme que viu no outro dia em que os governos raptavam pessoas e as submetiam a dolorosas experiências. Embora se tivesse automaticamente descartado parte desta teoria, num ponto todos concordaram; estávamos vivos e havíamos mudado de sítio, mas como?
Foi unânime a decisão de não nos separarmos enquanto visitávamos a aldeia de casas de pedra abandonadas. Depois veio o medo e a paranóia, ao se verificar que a aldeia era relativamente pequena, mas à volta estendia-se um deserto de terra sem fim visível. Já sei onde estamos, estamos no fim do mundo, revelação a cargo do taxista. O sol erguia-se lentamente no horizonte; sempre era madrugada. Deve estar contente, sacerdote, ou não?, perguntou a limpadeira, olhe bem, que posso não ter estudos, mas sei que morremos num deserto se não tivermos água, e eu ainda não vi nem poço nem torneira; se ainda não estamos mortos, para lá caminhámos, não era isso que queria? O padre não respondeu. É a primeira madrugada que desejava prolongar para sempre, disse a cientista dando um leve toque no ombro do taxista. É sempre assim, respondeu o taxista, nunca controlámos o que sentimos. Voltámos para o centro da aldeia. A limpadeira dirigiu-me a palavra. Pena tenho de ti, disse pessimista, que vida curta vais levar. O taxista, ouvindo o que fora dito, agarrou a limpadeira pelos braços e abanou-a com força, gritando exasperado que ninguém ia morrer, e ameaçou-a de que se me voltasse a assustar daquele modo, lhe arrancaria a língua. A cientista afastou-o e a limpadeira começou a chorar. O padre rezava.
Sim, vou morrer, disse-lhes eu. Cala-te miúdo, ordenou o taxista. Já ia morrer antes de vir para aqui, continuei. Todos ficaram a olhar para mim sem saber o que pensar. Tenho um caroço na minha cabeça que cresceu muito, informei. Ontem, quando adormeci na cama do hospital, lembro-me de ter sentido a minha mãe chorar, e achei que deveria estar para breve. Tu tens um cancro?, perguntou a cientista. É um caroço, respondi. A limpadeira suspirou e disse, então, sempre é verdade que estamos mortos. Respondi que não. Como sabes?, questionou o padre, a tua mãe chorou porque sabia o que estava para acontecer, e, se tu estás morto, então estamos todos, eu tinha razão. Não estou morto simplesmente porque ainda me sinto a morrer. Tretas, disse o taxista. Cala-te, ordenou a cientista, se tu podes sentir a madrugada, porque não pode ele sentir o corpo a morrer? A morte é o oposto da madrugada, é o pôr do sol, concluiu a limpadeira que sempre sabia de filosofias.
Depois dei comigo a contar o que sucedeu, dei comigo a contar que o cancro fora provocado por um aparelho sofisticado no hospital, um aparelho que iria analisar a minha cabeça e dizer-me se a fractura que tinha feito numa queda era ou não grave. O aparelho não estava a funcionar devidamente, por causa de um erro de manutenção. O caroço só foi detectado dois anos mais tarde, quando eu entrei para a escola, há já dois anos e meio.
Então esta madrugada é a vida, disse a cientista, é a vida que, de algum modo, temos de devolver a este rapaz. Ninguém percebeu. Há uns anos, trabalhei no desenvolvimento de um aparelho para o Instituto de Oncologia, mas um erro de cálculos foi cometido e os raios gama emitidos pelo aparelho mostraram ter uma energia muito superior à que seria de desejar, o erro foi reparado dois dias depois, mas o aparelho chegou a ser utilizado. E foi isso que provocou o cancro, concluiu o padre. Estou aqui para te devolver a vida, disse a cientista, tal como todos nós, agora é óbvio. Como assim, perguntou o taxista, que tenho eu com isso? Durante algum tempo tomei conta de crianças, disse a limpadeira, mas nunca tive grande paciência para putos, e um dia, com um deles, perdi a paciência enquanto lhe dava de comer e fechei-o na casa de banho, mas o chão estava molhado e ele começou a bater na porta em pulos para que eu o deixasse sair, depois ouvi um som seco. Seu monstro, disse o taxista. E a limpadeira atirou-se ao pescoço dele com um grito, mas o padre separou a mulher e a cientista agarrou o homem. Parem, os dois, gritei. A limpadeira começou a chorar. De qualquer modo, disse o padre, compreendo parte desta nova teoria, e se mostrar ser verdadeira, então tudo isto é obra do Senhor, mas o Senhor não permitiria a morte de uma mãe que tem três filhos para alimentar, mesmo neste caso. O choro da limpadeira subiu de intensidade ao ouvir estas palavras, e disse, já não os tenho, os meus filhos, já não os tenho, vivem com o pai, sou alcoólica. Todos ficaram calados por uns momentos, só o choro se ouvia, o sol continuava a subir.
Falta explicar onde entro eu e o nosso amigo sacerdote na lengalenga, disse o taxista. E convém apressar a resposta, não tarda, deixa de ser madrugada, concluiu a cientista. Não compreendo a tua serenidade e credibilidade no assunto, reparou o padre, pois és uma mulher da Física, da ciência, e isto não se explica pela ciência. Um cientista também sente, e eu sinto que devo a vida a este rapaz, respondeu ela. Eu continuei; quando me detectaram o caroço disseram que ainda era possível removê-lo se agissem nos próximos quatro meses, mas os custos eram muito elevados, o meu pai morreu no ano da queda, dois meses depois, num acidente de viação, e depois disso nunca mais vivemos muito bem e a minha mãe não quis pedir ajuda à família. Porquê?, perguntou a limpadeira. Ela foi expulsa, era o que me dizia a avó, mãe do meu pai, isto porque eram todos muito religiosos e a minha mãe engravidou antes de casar, e, ainda por cima, de um Judeu. Meu Deus, que fiz eu?, lamentou o padre, sei quem é tua mãe, fui eu quem instigou ódio nos corações da tua família, não a queria na minha paróquia. Dois monstros, disse o taxista. Perdoa-me, disse o padre, prosternado aos meus pés. Por Deus, perdoa-me. Não, respondi; perdoo-te por ti. Começo a sentir-me esquisita, disse a cientista, vá, motorista, és tu quem falta. Um morto resultou de um acidente em que as culpas caíram sobre mim, por volta da altura que relatas, confessou o taxista. O meu pai?, perguntei-lhe. Não sei, nunca quis saber nada sobre o homem, respondeu, mas deve ter sido, senão não estaria eu aqui, na madrugada da morte. Da vida!, disse a cientista. Da minha morte, retorquiu o taxista. Por este gesto, todos iremos para o Céu, informou o padre, nada deves temer. E se eu quiser o Inferno?, perguntou o taxista. Ao ouvir isto, abracei-o com força e sussurrei-lhe ao ouvido, pelo Inferno já passaste tu, já passámos todos nós. Ele chorou e abraçou-me, enquanto soluçava o verbo perdoar, conjugando-o no imperativo.
Falta explicar onde entro eu e o nosso amigo sacerdote na lengalenga, disse o taxista. E convém apressar a resposta, não tarda, deixa de ser madrugada, concluiu a cientista. Não compreendo a tua serenidade e credibilidade no assunto, reparou o padre, pois és uma mulher da Física, da ciência, e isto não se explica pela ciência. Um cientista também sente, e eu sinto que devo a vida a este rapaz, respondeu ela. Eu continuei; quando me detectaram o caroço disseram que ainda era possível removê-lo se agissem nos próximos quatro meses, mas os custos eram muito elevados, o meu pai morreu no ano da queda, dois meses depois, num acidente de viação, e depois disso nunca mais vivemos muito bem e a minha mãe não quis pedir ajuda à família. Porquê?, perguntou a limpadeira. Ela foi expulsa, era o que me dizia a avó, mãe do meu pai, isto porque eram todos muito religiosos e a minha mãe engravidou antes de casar, e, ainda por cima, de um Judeu. Meu Deus, que fiz eu?, lamentou o padre, sei quem é tua mãe, fui eu quem instigou ódio nos corações da tua família, não a queria na minha paróquia. Dois monstros, disse o taxista. Perdoa-me, disse o padre, prosternado aos meus pés. Por Deus, perdoa-me. Não, respondi; perdoo-te por ti. Começo a sentir-me esquisita, disse a cientista, vá, motorista, és tu quem falta. Um morto resultou de um acidente em que as culpas caíram sobre mim, por volta da altura que relatas, confessou o taxista. O meu pai?, perguntei-lhe. Não sei, nunca quis saber nada sobre o homem, respondeu, mas deve ter sido, senão não estaria eu aqui, na madrugada da morte. Da vida!, disse a cientista. Da minha morte, retorquiu o taxista. Por este gesto, todos iremos para o Céu, informou o padre, nada deves temer. E se eu quiser o Inferno?, perguntou o taxista. Ao ouvir isto, abracei-o com força e sussurrei-lhe ao ouvido, pelo Inferno já passaste tu, já passámos todos nós. Ele chorou e abraçou-me, enquanto soluçava o verbo perdoar, conjugando-o no imperativo.
Perdoa-nos a todos, concluiu a limpadeira. Fez-se silêncio.
Chegou a hora, informou o taxista passados alguns minutos. Como sabes, perguntou o padre. A madrugada, já não a sinto.
Acordei na cama do hospital com dois homens de bata branca ao meu lado. Como te sentes, perguntou um deles. Bem, respondi.
A minha mãe estava junto à porta e chorava, mas de um chorar diferente. A incredulidade era visível nos olhos dos dois homens e minha mãe disse entre soluços, vamos para casa meu querido, vamos para casa.
Agora que relembro e escrevo isto que nunca contei a ninguém, passados oitenta e nove anos, volto a sentir o meu corpo a morrer. Ao meu lado, aberto, está um livro que se chama A Jangada de Pedra, onde se pode ler, Se um dia tiveres um filho, ele morrerá porque tu nasceste, desse crime ninguém te absolverá
Por Leandro Ribeiro
Por Leandro Ribeiro
Fotografia de Marta Lopes
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