"A Insustentável Leveza do Ser" é um livro que, como poucos, explora as vastidões do território do amor. Fá-lo de uma forma realista. Num certo sentido, pode-se até dizer que o faz de uma forma amargurada. Milan Kundera mostra as cartas com que dá início a um romance sobre o amor: um cirurgião checo, divorciado, vive embrenhado naquilo a que chama "amizades eróticas". Conhece Tereza, uma empregada de café, numa deslocação que, por mero acaso, tem que fazer à provincía. No momento em que se conhecem, Tereza está no balcão a ler um livro. Repara em Tomás que se senta numa mesa também com um livro. Para ela, o livro é uma espécie de senha entre almas. Nunca naquele local em que trabalha, vira alguém com um livro. É neste momento que se apaixona por ele. Duas semanas depois ela está em Praga. Fazem amor e, depois, ela adoece. Durante uma semana, fica na cama dele, convalescente. A dado momento, enquanto Tereza arde em febre, Tomás sente que não sobreviveria à sua morte. Era como se aquela mulher, naquela cama, fosse uma criança que alguém abandonara, numa cesta untada de pez, rio abaixo. Essa criança viera ter à sua cama. Amá-la-à? Nem ele sabe e, manifestamente, parece-lhe excessivo esse sentimento. Ela veio para viver com ele. E ele, ele que sempre fora tão cioso da sua liberdade, não se consegue ver livre dela. Nem, na realidade, sabe se é isso que quer. O que temos aqui, então? Um homem que até aí, vivia feliz entre as suas várias amantes e uma mulher que veio para Praga viver com o grande amor da sua vida.À partida, poder-se-ia considerar que as cartas que Kundera mostra, ainda que não muito usuais, facilmente poderiam cair na vulgaridade: Tomás esforça-se por deixar as suas amantes, com mais ou menos dificuldade acaba por consegui-lo porque, acima de tudo, existe o seu amor por Tereza. Errado, Tomás não consegue deixar as suas amantes. Aliás, nem sequer tenta, uma vez que, para ele, isso em nada interfere com o amor que sentirá (nem ele, creio, está certo de o sentir) por Tereza. Entramos, portanto, num campo mais perigoso. Kundera começa a explorar o território do amor. Explora o seu lado escuro, o lado que se afasta da visão solar que, normalmente, temos do amor. Tereza tenta aceitar as amantes de Tomás. No fundo, tem medo que ele a deixe e que ela tenha que regressar a esse mundo onde não existiam almas que conhecem os segredo dos livros.O amor joga-se, portanto, entre um homem femeeiro que não está certo de amar aquela mulher, e essa mesma mulher que tem a certeza que o ama, ao mesmo tempo que reconhece a sua incapacidade para o mudar.O que acontece? Em termos gerais, uma vez que não é meu intuito descrever o livro, o que acontece é que vão ficando juntos. Numa análise fria, é isso o que sucede. Ficam juntos porque Tereza é demasiado fraca para o deixar, e ficam juntos porque, à sua maneira, Tomás é demasiado fraco para a deixar. Portanto, ficam juntos. Dificilmente se poderá imaginar quadro mais desprovido de verdadeiro amor: duas pessoas que estão juntas, simplesmente, porque nenhuma delas tem força para partir. No entanto, e é esta principal razão pela qual considero que este livro é de uma profundidade inquestionável, isto pode até nem ser amor verdadeiro, mas é o amor de Tomás e Tereza. Logo, é tão verdadeiro como outro amor qualquer. Para mais, este amor nem sequer tem a felicidade para o justificar. Assim, justifica-se a si próprio.Ler "A Insustentável Leveza do Ser" é ler um livro triste. É ler um livro que relata um amor que vai funcionando sem nunca funcionar. Um amor que funciona apenas, e só, porque o tempo passa e esse amor não termina. É ler um livro em que, a cada página, esse amor de uma forma paradoxal, se parece autoconsumir e, no entanto, ficar sempre mais forte... Talvez, apesar de tudo, não seja assim tão paradoxal: é o tempo aquilo que verdadeiramente joga a favor desse amor.Mas é também no tempo que esse amor desgasta as personagens que o vivem. Um Tomás incapaz de fazer Tereza feliz, uma Tereza infeliz incapaz de ser aquilo que, no fundo, nem Tomás sabe o que quer que ela seja.Na repressão pós Primavera de Praga, a descida dos dois ao anonimato, às profissões menores que ainda iam sendo permitidas a todos aqueles que não fizessem a sua autocrítica, aproxima-os mais ainda. É como se o seu amor fosse um caminho descendente.
E o leitor, aqui, comprende que, mais importante do que adjectivo, é o substantivo. Esse amor é um caminho. Como todos os amores o serão. Mas alguns, por maldição talvez, são um caminho que fica no lado escuro dos territórios do amor. Talvez por isso mesmo, no fim, nos deixem um travo de nostalgia e um brilho diferente, triste, melancólico, amargurado.Aprendi, com este livro, algo que já intuíra: o amor pode não ser sinónimo de felicidade no sentido mais corrente do termo. E pode também não ser infelicidade no sentido mais corrente do termo. O amor, afinal, pode, uma vez mais no sentido mais corrente do termo, não ser amor.
por Ricardo Simães
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