Para a minha AMIGA Cátia, de coração.



Os amigos


Os amigos são por assim dizer as preciosas “âncoras” que temos neste mundo. São eles em quem confiamos, em quem sabemos existir a capacidade de nos prender à vida, quando tudo em volta ameaça transformar-se num naufrágio; são eles em quem pomos a certeza de que um dia, se algo de muito mau nos acontecer, alguém nos lembrará e chorará, alguém que terá saudades da pessoa que fomos.

Ter amigos passa, deste modo, a constituir, tal como comer ou respirar, um acto de sobrevivência. E, tal como a alimentação ou a respiração, os amigos podem ser bons e disciplinados ou maus e irregulares. Cabe-nos procurar os primeiros e evitar os segundos, ou, mais ainda, cabe-nos criar formas de separar o trigo do joio e não deixar que se misturem ambas as qualidades.
Acontece que frequentemente os amigos são uma espada de dois gumes: são imprevisíveis quando precisamos deles e monopolistas quando precisam eles de nós. Há aqueles que constantemente invocam a “amizade” para lembrar que são nossos amigos, como se, nomeando-a, a tornassem mais viva, mais real, mais genuína. Dou-me conta de que esses amigos são os que, tão misteriosamente quanto apareceram na nossa vida, um dia deixam de dar notícias, desaparecem sem deixar rasto ou marcas, a não ser talvez a impressão de que fomos usados.

Outra categoria é a daqueles a que o povo chama «amigos da onça» e «amigos de Peniche», amigos que nos voltam as costas, no meio de justificações complicadas, logo no momento em que mais precisávamos de uma palavra de apoio ou de um abraço fraterno, amigos que nos cortam a “âncora” e nos lançam para o mar alto em horas de tempestade. São eles afinal os “amigos” que nunca o foram e que nos avivam as contradições deste mundo, os amigos que pela traição ou pela vigarice nos fornecem argumentos suplementares para odiarmos tudo à nossa volta.

E há de modo igual aqueles amigos de que nunca nos lembramos e que um dia telefonam ou aparecem em casa, a perguntar se «está tudo bem», a inquirir pelo nosso sucesso profissional e pela saúde dos filhos. São aqueles amigos que nos apanham cinco minutos antes de sairmos para a consulta no dentista, ou para o cinema, aqueles que, como vírus informáticos, aparecem nas horas erradas e por motivos errados, com o inconveniente de trazerem para a luz do dia assuntos que supúnhamos arrumados e memórias forjadas de «bons velhos tempos». Quando, por arte ou força, nos livramos deles (já a consulta no dentista teve de ser adiada e o filme deixou de poder ser visto) dão-se-nos ganas de mudar o número de telefone ou de número da porta.
E há, finalmente, os AMIGOS! Aqueles a quem atribuímos a nobre incumbência de saber de nós, de nos aturar, de nos dar conselhos, de ouvir as nossas confissões relativamente patetas do dia-a-dia; aqueles que nos censuram com limpidez e honestidade; aqueles que nos avisam, mesmo quando não queremos; aqueles que por generosidade impagável nos dão “comida” e “oxigénio”, mesmo quando nada temos para retribuir, ou quando, pior, retribuímos com ingratidão.

Quase nunca pensamos nos AMIGOS como “amigos”. De tal forma existem dentro de nós que mais os tratamos como irmãos e irmãs, deles exigindo acima do que o devido, mas também a eles nos entregando sem limites, porque sabemos que tudo quanto façamos por eles, eles por nós fariam.
Esses AMIGOS não são em número mais do que os dedos de uma mão e quase sempre os conhecemos por acaso, em contextos de sacrifício e sofrimento, em provas de fogo, nas quais eles foram o anjo-da-guarda de que tanto precisávamos. O meu pai costuma, a título de exemplo, dizer que «os verdadeiros amigos são os da tropa», o que julgo ser aceitável como verdade.
Ora, este punhado de criaturas é o resultado de anos de amadurecimento. São o que fica no prato da garimpa, separadas e eliminadas todas as escórias, reluzindo um aqui, outro ali, com raridade, espaçadamente, em demoradas provas de convivência e aprendizagem. E os que ficam bastam. Têm de bastar!

E, para terminar, deixo, muito a propósito, alguns versos de Alexandre O’ Neill: «Amigo (recordam-se, vocês aí,/ Escrupulosos detritos?)/ Amigo é o contrário de inimigo!/ Amigo é o erro corrigido,/ Não o erro perseguido, explorado,/ É a verdade partilhada, praticada.// Amigo é a solidão derrotada!/ Amigo é uma grande tarefa,/ Um trabalho sem fim,/ Um espaço sem fim,/ Um espaço útil, um terreno fértil,/ Amigo vai ser, é já uma grande festa!».

Por João Ricardo Lopes, escritor, professor

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bonito este texto. Gostei muito!

Xana