
Vivemos tempos difíceis !... Tempos de insegurança com o ruir dos valores tradicionais e a sua não substituição por quaisquer outros; de indefinição em relação ao futuro com o crescente desemprego dos jovens e a precária protecção na velhice; de pouca esperança, enfim, nos benefícios apregoados das novas tecnologias que nos colocam na " aldeia global " sem nos darem tempo de preparação e por isso nos esmagam na nossa pequenez.Mas se a população activa vive nesta angústia, que aflora a cada passo nas mais desconcertantes manifestações públicas, que dizer das crianças nascidas já em tal meio e sem as defesas necessárias para as integrar e resolver? Para mim, que lido com elas todos os dias, que procuro percebê-las, que ouço as queixas dos seus pais e educadores àcerca dos seus comportamentos, principalmente na família e na escola, o cerne da questão reside na desagregação do modelo familiar que se tem operado nos últimos anos no chamado mundo ocidental.
O modelo onde cresciam os meninos nascidos nas décadas de cinquenta e sessenta ( para já não falar nas anteriores ) centrava-se numa família alargada muitas vezes aos avós, em que os papéis atribuídos ao pai e à mãe estavam perfeitamente definidos, geralmente inserida na cultura religiosa dominante e em que a escola tinha apenas um papel complementar na formação global da criança. E o que encontramos hoje ? Os pais repartem por igual as preocupações com o trabalho e as restantes vertentes da vida social, os avós estão, em grande parte ausentes, dado que muitas famílias se deslocaram do interior para o litoral, e é o Estado que tem que se substituir à família na protecção e educação ( muito para além da simples instrução... ) das crianças.
Se juntarmos a este fenómeno o aumento progressivo dos divórcios, com o aparecimento crescente das famílias monoparentais ( só a mãe presente na maioria esmagadora dos casos ) e das famílas " híbridas " com filhos de diversas ligações ou casamentos, compreendemos o drama que vivem estas crianças. Há países em que nas escolas metade das crianças têm os pais separados ( E.U.A.,Suécia,etc ) e cá em Portugal a percentagem tem vindo a aumentar assustadoramente.
Ora, sabe-se, que para o desenvolvimento harmonioso de uma criança é fundamental o papel do pai como o elemento primordial à separação necessária da mãe que o gerou ( para o tirar das " saias da mãe " - como diz o nosso povo ) e para a levar a descobrir e a enfrentar o mundo ( o que para alguns psicólogos é chamado o segundo nascimento ), no fundo a criar a autonomia, a autoestima, a personalidade. Os estudos demonstram que a mãe a este nível tem um papel " castrador " que se torna mais evidente no rapaz e a minha prática diária está inteiramente de acordo com este achado. Criaram-se assim pais ( homens ) ausentes e filhos ( rapazes ) debilitados para encarar os desafios de um mundo cada vez mais competitivo e desumano. Não admira depois que os estudantes universitários sejam maioritáriamente do sexo feminino ... Que fazer então perante esta " feminização " da sociedade actual ? Não advogo um regresso saudosista ao passado até porque isso seria completamente impossível. Há, pois, que pensar em soluções novas que se adaptem a tempos novos e sobretudo que tenham uma visão mais global e "humana" do problema. Como diz o Prof. Daniel Sampaio, há que inventar novos pais ao que eu acrescentaria: há sobretudo que inventar uma nova sociedade com novos valores mas recuperando alguns do passado que são e serão sempre eternos como a bondade, a solidariedade, a justiça e o respeito por nós mesmos para assim podermos respeitar os outros e promover o bem comum.
Há também que não esquecer que os valores morais transmitidos por qualquer religião e essas ou outras aproximações com o transcendente deverão estar sempre presentes na educação de uma criança, pois, na devida medida e sem radicalismos caducos, ajudam a balizar os comportamentos, a saber reflectir e em última análise a gerar bons cidadãos.Sobre este e muitos outros aspectos desta problemática tão complexa muito mais haveria para dizer. Fica para outra oportunidade na esperança contudo que se abra o debate desde já aqui neste espaço e que da discussão possa nascer a luz de que todos nós pais e educadores precisamos.
Por José Carlos Palha, V. N. Gaia, Portugal
Sem comentários:
Enviar um comentário