Apesar da teimosa certeza dos especialistas, duvido que saibamos ao certo onde fica o Terceiro Mundo: Áfricas, Américas Latinas, Ásias quedam-se para lá do mapa, distantes o suficiente para que receemos o seu manto maligno. Na verdade, isso de berços de lata, de garotos que nunca conheceram pai ou mãe, isso de cartéis de droga, de gangs e salteadores, isso de antros com infectados pelo HIV, malária, lepra e tuberculose, isso de santuários de pornografia infantil, de escravatura, de analfabetismo, de fome, guerra, isso que é o conjunto de todas as pragas e chagas (que lembram o Inferno descrito por Dante na sua Comédia, com a diferença de que Dante era dotado de uma prodigiosa imaginação) fica longe o bastante para que saibamos o que é, em termos precisos.
E assim sendo, o Terceiro Mundo será um caso situado, circunscrito, alheio a nós. Fiquemos descansados, ouçamos um fado, liguemos a televisão e satisfaçamos o apetite com um talk-show bacoco ou com as anedotas do tipo que produziu um Cd, vendido nas rolotes de feira em versões pirateadas; ou então leiamos a última edição da revista do Jet Set, onde se dá a coscuvilhar essa existência épica das criaturas que dobram as consoantes nos nomes próprios e apelidos (os Affonsos, as Rittas, os Mellos, os Telles e os Menezzes), ou que aplicam refinadas ementas linguísticas («tá a ver?»), entre lapsos de somenos importância («a gente estávamos numa festa in…», «haviam vários garotos giros…»).
O Terceiro Mundo não é coisa que nos diga respeito, não a nós que somos gente da primeira divisão mundial, ínsula dos ricos e dos civilizados. Às vezes, a casa sofre um abanão, mas não cai. Bem, pelo menos até que algum entendido em classificações hierárquicas decida apurar o seu conhecimento sobre o como se nasce, sobrevive e morre em Portugal, pelo menos até ficar elucidado sobre o como se aprende, se cultiva o espírito, se faz o civismo em Portugal. Aí, nada garante que o caso não mudasse de figura e estalasse o verniz…
Ficaria o sábio homem a conhecer, entre surpresa e lenços empapados de suor, que a malta vem ao mundo em macas, nos corredores de hospitais, decerto não suficientemente limpos e desinfectados; a saber que a malta mata e se dá a matar nas estradas, mais que num campo de batalha, e que se se aguenta no asfalto, morre depois de tuberculose, enfartes de miocárdio, diabetes e outras tristes enfermidades, pouco chiques.
Ficaria o homem a saber que a malta se habituou à gatunice, à aldrabice, à mentira, ao faz-de-conta, à magra côdea do salário, aos impostos medievais por tudo e por nada, à desonestidade intelectual, à incompetência administrativa, à covardia judicial, ao frango com nitrofurano, ao borrego com brucelose e à vaca louca.
Ficaria o douto analista a par do saudável costume de se escarrar no chão, do característico jeito de se vandalizar sinais de trânsito e paredes dos prédios (grafitados com os I Love You, com os White Boys e as Dark Girls, com os Viva X e os Abaixo Y), do augusto propósito dos condutores em estacionar nos passeios, do expedito funcionário público que se arrasta de um lado para o outro, considerando enfastiado as monumentais filas de espera causadas pela sua eficácia atrofiadora (só depois gesticulando, despachando, zurzindo o labrego e o pé-descalço).
Depois há ainda os ópios desta raça de marinheiros, santos e poetas, esse futebol supra-sumo, essa política vilã (a dos comícios para inglês-ver, onde não faltam o Quim e a Mila, nem a bandeirinha e o garrafão de vinho, nem a cesta de palha e os tupperwares com pastéis de bacalhau, onde do púlpito os maiorais se zangam contra os outros, para mais tarde com eles se reconciliarem em privado, à mesa de um qualquer restaurante de luxo entre charutos e acordos de cavalheiros, longe já do Quim e da Mila).
O informado especialista em questões de terceiromundismo talvez vacilasse, calculando os PIBs, os Défices, os Rendimento Per Capita. Talvez não houvesse que recambiar a malta para a segunda divisão. Talvez descansasse um pouco, ao dar-se conta de que por estas bandas não há exploração infantil, nem patrões malévolos que voam nos BMWs e Jeeps com a massa das fábricas, investindo-o em apartamentos de luxo, vivendas e outras mui cristãs aplicações; quando tomasse numa nota bene o registo de que por cá não há senão boas universidades (e não umas quantas bastilhas, viveiro de catedráticos rançosos), quando ficasse inteirado de que os génios criativos são os verdadeiros motores da cultura e não uns quantos alucinados e inúteis, caçados num qualquer casting para gáudio das audiências televisivas.
Diria esse entendido: «Ao menos isso, caramba!» E suspiraria, seguro de que não o subornariam dessa vez, seguro de que não o maçariam para que a nação continuasse primodivisionária (entre os bons deste mundo), bebendo, talvez exausto dessas legendas, um bom cálice de Porto, com alguma sorte «Made in Spain».
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